24/06/1984 - Folha de S. Paulo
No ar, o trapalhão Ernesto Varela
Ruy Castro
Da nossa equipe de reportagem
Todos os Domingos, no programa "Olho Mágico" da Abril Vídeo (TV Gazeta, 20 horas), o repórter mais tímido da televisão brasileira entra em cena. Míope, balbuciante e atrapalhado, Ernesto Varela consegue, mesmo assim, desvendar os bastidores da notícia que ninguém deu e arrancar surpreendentes declarações de seus entrevistados. Exceto no dia em que foi entrevistar Caetano Veloso e ficou mudo porque não tinha o que perguntar. Na cola de Ernesto Varela por toda parte, vai o seu fiel câmera Waldeci, tão inseguro e destrambelhado quanto ele próprio, tropeçando nos fios, esquecendo de pôr foco na lente e derrubando cenários.
Entre as melhores proezas de Varela e Waldeci, houve a cobertura de uma festa na boate Gallery, em que repórter e câmera seguiram José Vítor Oliva ao banheiro para perguntar-lhe como os ricos se comportam quando ninguém está olhando. O repórter aproveitou para fazer o mesmo que Oliva estava fazendo e, ali, com os dois lado a lado sendo registrados pela câmera, deu-se a entrevista. Outro lance engraçadíssimo aconteceu na reportagem de Varela sobre o Congresso no dia da votação da emenda Dante de Oliveira. Varela perguntou qualquer coisa a Nelson Marchezan, líder do PDS na câmara. Marchezan respondeu e Varela rebateu: "O senhor acredita mesmo no que acabou de dizer?" Marchezan disse que sim, claro, mas Varela foi em frente: "E o senhor acredita que o povo vai acreditar que o senhor acredita?" Marchezan não teve resposta.
Nessa mesma reportagem, Varela e Waldeci deram adeusinho no carro da reportagem para o vice-presidente Aureliano Chaves, o qual respondeu com um aceno. Em seguida, foram buscar o deputado Paulo Maluf em casa para levá-lo à votação e descobriram, que ele não ia trabalhar naquele dia, "nem em casa, nem no Congresso". Em outra reportagem sobre grã-finos, Varela armou-se de coragem e cheirou o pescoço de uma socialite que estava entrevistando. A qualquer hora dessas, ele ganha um prêmio Esso e aí é que eu quero ver como é que fica.
Porque "Ernesto Varela" simplesmente não existe. É um personagem de televisão, criado em Outubro último, pela equipe do Olhar Eletrônico, que produz o "Olhar Mágico" para a Abril Vídeo. Em sua identidade secreta, "Varela" é Marcelo Tas, um estudante de jornalismo da ECA com alguma experiência em teatro, 25 anos e em nada parecido com o repórter. Nem fisicamente. Marcelo, por exemplo, não usa aqueles óculos com grossos aros vermelhos. Aliás, ele nem usa óculos. A exemplo de Clark kent, pode andar tranquilamente pelas ruas sem ser reconhecido. Mas com a vantagem de que não precisa espremer-se em cabines telefônicas para trocar de roupa. ("Varela" usa um terno azul comprado na Sears). Faz isso em seu camarim mesmo, na redação do Olhar Eletrônico, em Pinheiros.
"Varela" nasceu de uma idéia do próprio Marcelo, mas a elaboração final do personagem é de toda uma equipe. "Waldeci" também é um personagem, interpretado pelo câmera Fernando Meirelles, um dos proprietários do Olhar. Os dois escrevem,produzem, diregem e editam o quadro meio a meio. No vídeo, pode parecer que "Varela" está sempre brabo com "Waldeci", mas as instruções que Fernando dá a Marcelo fora da câmera é que contam. O resultado final é que é sempre engraçadíssimo, lembrando o clima dos primeiros filmes de Woody Allen, antes que este começasse a acreditar nos críticos que passaram a rotulá-lo de intelectual.
"O telespectador gosta de 'Varela' porque compactua com ele", diz Marcelo. "Há uma empatia. 'Varela' é ingênuo e sincero, e está sempre em busca da verdade no entrevistado. A maioria dos repórteres de verdade procura limpar a imagem do entrevistado, e este se sente à vontade para dizer o que quiser. Quando você tibuteia a pergunta o que o telespectador realmente gostaria de saber, o entrevistado balança, fica sem saber o que fazer e se entrega".
Na vida real, Marcelo Tas não está deslumbrando com o sucesso de “Varela”, nem preocupado com a possibilidade de o personagem engolir o seu intérprete, como James Bond fez com Sean Connery ou o Bom-Bril com Carlos Moreno. No Olhar Eletrônico, entre outras coisas, ele produz e edita comerciais, portfólios e anúncios institucionais para grandes empresas, e agora está dirigindo seu primeiro tape de ficção. Além disso, “Ernesto Varela” é, por enquanto, um personagem consumido unicamente em São Paulo. Mas a Abril Vídeo está planejando lançar o “Olhar Mágico” no Rio, em cadeia nacional e, quando isso acontecer, as gargalhadas vão se ouvir em todo o País. Para mim, Marcelo tas deveria ir se habituando aos óculos desde já.
Cara a cara, as marcas da televisão
Gabriel Priolli
Crítica da “Folha”
Ainda hoje, há muita gente que assiste aos programas do canal 5, em vez da Globo, assim como tem pessoas que vêem há anos o canal 4, independente de ele ser Tupi ou TVS. Outro jeito de memorizar a estação é pela identificação visual: aquelas bolas com uma TV dentro (Globo), aquele disco voador esquisito (Bandeirantes). Certamente, ainda há muita gente que lembra do indiozinho que a Tupi usava como marca, nos anos 50.
Mas, para fixar mesmo uma emissora de TV na memória, nada melhor do que as caras que desfilam ali todo dia. Com o tempo, de tanto vê-las e ouvi-las, de conhecer seus tiques e suas manias, suas opiniões e suas reações, elas acabam sendo para a gente a própria imagem da emissora. São a face que cada canal tem.
Na TVS, por exemplo, é muito fácil identificar essa face: é ela que fatura mais alto e paga os salários de todo mundo. Claro que Sílvio Santos não está no ar todo dia. Mas sua emissora é tão parecida com ele e seu jeito de fazer programas de TV que ele é a face da TVS. Tanto assim que agente olha a face emergente do canal 4, o Gugu Liberato, e tem a sensação que puseram um loirinho para dublar o Sílvio.
Para o sujeito ser a face de sua emissora ele precisa, antes de mais nada, ficar nela por vários anos e ter acesso regular às câmeras. Isso acontece com aqueles “polivalentes”, que tanto podem apresentar um telejornal como comandar um festival de MPB. Na Record, é o caso de Hélio Ansaldo, hoje apresentador de “Record em Notícias”, um rosto tão familiar como o próprio aparelho de TV em nossa sala. Ou então de seus colegas de geração: Murilo Antunes Alves, Blota Jr. Mesmo Sílvio Luís, o mais destacado nos últimos anos, ou Márcia Maria, animadora de “A Mulher Dá o Recado”.
Na Globo, durante anos, Sérgio Chapelin foi a face: que o digam as centenas de cartunistas que usaram aqueles cabelos longos e aquele rosto de galã mexicano para incontáveis gozações em cima da Vênus platinada. Mas depois ele foi fazer o que não sabe na TVS e o cetro ficou com Cid Moreira, aquele inesquecível grisalhão com o qual temos encontro marcado todo dia às oito da noite.
A Bandeirantes, naquele entra e sai, troca-troca, mexe-remexe, quase que não tem uma cara definida. A falta de melhores representantes, digamos: Joelmir Betting. Ou, melhor ainda, Ângela Rodrigues Alves. É só ouvi-la falando que a gente já sabe o canal. O mesmo vale para Júlio Lerner e Luis Noriega, as vozes de plantão da Cultura há quase duas décadas. Ou então Peirão de Castro e Zé Italiano, marcas registradas da TV Gazeta.
A manchete, que ainda não tem um único programa feito em São Paulo, evidentemente não poderia ser a sua cara. Vamos eleger Íris Latieri, temporariamente, ao menos como prêmio pelo strip-tease (familiar) que fez no Carnaval, em pleno telejornal. Varella, obviamente, fica com a cara da Olhar Eletrônico. Resta então a Abril Vídeo, mas aí tem um problema: Paulo Markun e Sílvia Poppovic estão indo embora. É nessas que uma televisão quebra a cara.