A TV dos homens de preto
Como em todo estúdio de televisão, a movimentação é intensa. Tudo começa horas antes de ir ao ar. Gente pra lá, gente pra cá. Produtores, câmeras,assistentes, técnicos e editores, um frenético corre-corre, enquanto do lado de fora do estúdio as pessoas vão chegando. É a platéia. Muitos fizeram contato com a produção meses antes. Essa é sem dúvida a platéia mais concorrida de todos os programas da TV Bandeirantes atualmente.Tem gente que vem de longe, muito longe mesmo, viaja horas até chegar aos estúdios da emissora no Morumbi, em São Paulo. O pessoal é recebido com um lanche até
ser chamado para ocupar a arquibancada arredondada. Ao entrar, a viagem, o cansaço e o tédio de esperar do lado de fora parece dar lugar a uma outra expectativa. A visão da mesa com as cadeiras vazias e as letras CQC em 3D dão aos fãs a confirmação que faltava: eles estão ali mesmo.
Faltam dez minutos para o início do programa quando Marco Luque, ainda a caminho do estúdio, fala ao microfone: “alô alô...som. Meninas da platéia que estão de saia e sem calcinha, beijo, me liguem”. É o que basta, a galera vibra na arquibancada. Luque está especialmente feliz nesta segunda-feira,27 de outubro, pois conseguiu mais uma vez falar com Lula, no domingo, durante o segundo turno das eleições. “Eu falei com o presidente!”, fala imitando criança.
Algumas brincadeiras depois, Luque senta-se e quem chega é Rafael Bastos. Mais sério, porém não menos aplaudido. “Boa noite gente, como estão? Beleza!”, diz e agradece os aplausos. Enquanto repassam o roteiro do programa, faltam cinco minutos, na platéia a expectativa é grande. De repente, Marco Luque se levanta imitando reverência e solta, para delírio da galera: “senhoras e senhores,
com vocês, Marcelo Tas!”.
O comandante dos homens de preto do jornalismo de humor brasileiro adentra os
estúdios e é aplaudido como superstar. A movimentação, que era intensa, agora fica ainda maior. “Três minutos”, diz o diretor.Posicionados na famosa mesa estão Rafinha Bastos, Marcelo Tas e Marco Luque. A tensão para que dê tudo certo é tão grande que é quase possível pegá-la no ar. De repente, a música de abertura invade o lugar. Enquanto passam algumas matérias do
programa anterior, Marcelo Tas conversa rapidamente com seus pares e ensaia algumas falas. Comercial no ar terminando. As letras “C”, “Q” e “C” começam a rodopiar nos telões, agora é pra valer. Silêncio total. Mais alguns segundos e pronto. O chão parece tremer quando a trilha de abertura se inicia. A grua, e sua câmera, sai da parte superior do auditório e viaja até terminar em um close no rosto do Tas. Está no ar mais um Custe o Que Custar.
O que você veio fazer neste mundo?
Marcelo Tas tem cara de televisão. Impossível imaginá-lo em outra profissão. Olhe a foto e imagine esse cara um engenheiro, advogado ou mesmo um médico. Definitivamente não. E pensar que é engenheiro civil formado pela Politécnica da USP.
“ O Brasil é aquele país que vive na mentalidade do prefeito de cidade pequena do interior. A ponte tem que ter o nome dele; daí outro vai lá, muda o nome da ponte,
pinta de uma cor, pinta de outra. A ponte, que deveria significar superação, desenvolvimento, é o atraso histórico deste País.”
Seja em que canal esteja, no projeto que for, Tas leva consigo uma legião de
fãs que o acompanha desde quando encarnava o inesquecível professor Tibúrcio, no Rá-Tim-Bum da TV Cultura. Lá, na década de 1980, ele já infernizava a vida dos políticos com o repórter Ernesto Varela.
Através das lentes de seus indefectíveis óculos de acetato, Marcelo Tas pinta um
retrato de como vê o mundo. Tas tema cara da boa televisão, que respeita a
inteligência do telespectador e se multiplica em outras linguagens e mídias.
Por isso, a equipe da Drops se abalou até São Paulo em plena segunda-feira para
escutar o que ele tem a dizer. Como em TV o segundo vale hora, por precaução
chegamos às 17h30. Depois de alguma espera, o assessor da Band nos avisa que Marcelo Tas está à nossa espera na cantina. Sim, ele: Professor Tibúrcio, Ernesto Varela, o âncora do Custe o Que Custar, ali, em uma mesa todo sorridente e com um olhar de menino. Bolsa tiracolo, All Star nos pés, jeans, camiseta e uma careca com 49 anos.
“Estou esperando o pessoal da Drops”, diz a um de seus amigos de emissora e num instante nos percebe ali na sua frente. Cumprimenta todo mundo e sugere: “vamos fazer aqui mesmo!?”. Tas não parece nem um pouco preocupado de estar a poucas horas de entrar ao vivo em mais um CQC.
Empurramos a mesa para debaixo de um guarda-sol que servia de guarda-chuva, pois Sampa ainda faz jus à ‘terra da garoa’. Uma breve apresentação sobre a Drops, Tas folheia a última edição. Sim, raptamos o comandante do CQC. A entrevista vai começar...
Tas, na internet está dito que você entrou para a História quando criou o repórter-personagem Ernesto Varela. Conta pra gente, como é entrar para a história?
Só consigo uma explicação para isso. A garotada que me viu no Rá-Tim-Bum está agora assumindo muitos postos de comando na sociedade e eles têm muito carinho por mim. Há um carinho enorme nos jornalistas que escrevem essas loucuras. Mas, o que tem de concreto nisso é que há falas em personagens
que criei que marcaram essas pessoas. Acredito que isso desmente muitas teorias que dizem que a televisão não tem memória. A televisão pode sim ter durabilidade e os telespectadores tem sim mais inteligência do que muita gente imagina.
As pessoas procuram por qualidade na televisão?
Eu tenho certeza disso.
E por que programas de qualidade discutível têm grandes índices de audiência?
Veja. Eu quero dizer que é possível você ser popular e ter qualidade. Temos vários programas populares com qualidade. Agora, não acredito que quem subestima a inteligência do espectador tenha durabilidade na televisão. Prova disto é o Ratinho, que está está fora do ar há tempos.
TV sem conteúdo se desgasta fácil?
É possível enganar as pessoas por um certo tempo, mas não todo o tempo. Não estou aqui querendo desmerecer o Ratinho, mas ele talvez tenha usado a fórmula de uma maneira irresponsável. O problema está quando se acredita que a baixaria resolve o problema da audiência. Dá no que deu.
Sua influência no roteiro do CQC é grande?
Não. Olha, nem no CQC, nem em outros projetos que eu fiz. Televisão é uma coisa que você só faz em equipe, não existe um projeto solitário de televisão. No caso do CQC maisainda, são 50 pessoas que fazem este programa. É uma equipe muito grande. Temos uma redação com jornalistas, produtores, roteiristas,
toda a equipe técnica e só depois tem as pessoas que aparecem na frente das câmeras. Sete aparecem, 43 não.
Tem muito do Ernesto Varela no formato do CQC. O fato de ser um programa de origem argentina e, ao mesmo tempo, ter um formato muito parecida com uma criação sua incomoda?
Este conflito não existe. Ser um modelo importado ou não, não tem a menor
importância. O que eu vejo e concordo é que o CQC tem o DNA do Ernesto, que é tratar jornalismo com humor. Outras pessoas também fizeram televisão com este tipo de ousadia e sabem que na época não foi possível criar condições para
termos um projeto em rede nacional, com uma hora e meia por semana e
50 pessoas na equipe (risos). E isto diz muito sobre a TV brasileira, que
em muitos momentos é medrosa. Teve época em que fiz projetos muito
parecidos com o que se vê hoje no CQC. Em 1986, produzimos na TV
Manchete, o programa Mundo no Ar, um telejornal de ficção com vários
repórteres, alguns certamente vocês conhecem – Fernando Meirelles,
Renato Barbieri, um time muito bom. Ficou no ar um mês e saiu justamente pelo medo da emissora da liberdade e criatividade que desenvolvemos no programa.
Você está na TV há tempos. O que não mudou e vai demorar para mudar na TV brasileira?
O que eu vejo que não mudou foi a burrice de não acreditar na inteligência do telespectador. Isto para mim ainda é uma constante. De vez em quando tem um relâmpago, surge um projeto e todo mundo fala: “Não está vendo, isto é legal”.
A TV Pirata, por exemplo. Passado algum tempo, surge um programa policial em outro canal e todo mundo fala: “Espera aí, acho que o público agora não quer mais humor, quer outra coisa.” E o projeto anterior se desvirtua. É um processo
esquizofrênico. As pessoas acreditam que todo mundo pensa do mesmo jeito. Isto é erro de uma sociedade ainda jovem. Também na TV somos
tratados como crianças.
O que você quer dizer quando afirma que a sociedade ainda não amadureceu em relação à TV?
Quando se tem uma sociedade mais madura é possível termos vários tipos de programas simultaneamente, vários partidos políticos. No Brasil, teve época que você era ‘obrigado’ a ser de esquerda, por exemplo. Hoje já dá para dizer
que o cara pode ser de direita e ainda assim ser legal. Há algum tempo, um cara de direita era um asno, um censor, quase que um assassino. Hoje, começamos a perceber que somos seres humanos, somos uma sociedade que está se aperfeiçoando, que é importante termos partidos de direita, de esquerda, de centro. É um exercício de democracia? É um exercício de democracia, de cultura,
de educação, de liberdade de expressão. Creio que posso dizer o mesmo em relação à revista de vocês. Isto é, os leitores de Rio Claro não têm apenas uma ou duas revistas que chegam de São Paulo ou do Rio. Não existe mais ‘a revista’. Hoje, dá para fazer e ler várias revistas, várias emissoras de televisão. Há não muito tempo, éramos um país com uma ou duas emissoras de televisão. Isto está mudando. Devagar, mas mudando.
Falando em liberdade. Existe restrição nos assuntos abordados pela redação do CQC?
Não, o que existe é uma discussão sobre os limites que podemos adotar para um trabalho jornalístico sério. Sempre procurei discutir os limites nos lugares que trabalhei, o que inclui jornais, revistas, sites. No caso do CQC, tivemos esta discussão com a direção da emissora. Temos claro os limites e a responsabilidade de cada parte da equipe no projeto. Devo dizer a vocês que nunca participei de um projeto de TV com tanto apoio editorial, institucional e jurídico como aqui na Band.
Você concorda que o programa atraiu pessoas que não davam a mínima para a política e que passaram a se interessar pelo tema?
Tenho certeza disto. Recebo centenas de e-mails por dia que me confirmam. Tem muita gente que já tinha desistido de ver televisão aberta, muita gente. A moçada de internet, que não ligava mais para a TV, começou a ver o programa na rede.
Existe divisão entre humor e jornalismo?
Não acho que seja possível fazer esta divisão claramente. Você consegue fazer isso? Não creio que o humor possa ser um gênero de jornalismo. Humor é uma característica humana. O Paulo Francis era uma cara que trabalhava com humor. Millôr Fernandes, para mim o maior jornalista brasileiro vivo, é humorista. O que existe é o bom e o mau jornalismo. No CQC discutimos muito qual jornalismo estamos produzindo. Às vezes, concluímos que não realizamos um jornalismo à altura e procuramos melhorar. O bacana é que o programa também conquistou este espaço e passamos a ser respeitados. Conseguimos, inclusive, alguns furos.
Todo programa na TV brasileira ainda é escravo do Ibope?
O CQC não sofre este tipo de pressão. Porém, toda emissora depende de audiência. Como na revista Drops, é preciso tornar os espaços comerciais competitivos, viáveis aos anunciantes. Nesse sentido, precisamos da
audiência, mas não somos escravos do Ibope.Não ficamos o tempo todo olhando no índices para decidirmos o que e como fazemos. Comunicação é mais que isso.
Tas, onde está o problema da Educação que ninguém conseguiu resolver até agora?
Na sociedade, que não cobra. Brigamos para tirar o Dunga da seleção, mas não brigamos pela educação. Em 2001, o Brasil foi avaliado pelo índice PISA, que mede a qualidade da educação de um país comparando seus resultados com outros. O Brasil foi o último, o lanterninha em uma lista com mais de 50 países. Na Alemanha, que estava em terceiro e caiu para quinto no ano passado, o Ministro da Educação foi demitido. Enquanto imaginamos que os alemães são nossos adversários no futebol, eles brigam para ter educação. O futebol é apenas mais uma alegria.
O CQC tem muito da internet nas imagens e animações. A internet é uma referência?
Vou te dizer mais, hoje em dia até o leiteiro da esquina é influenciado pela internet, mesmo que ele nunca tenha navegado. Todos nós estamos imersos neste meio, mesmo que não se saiba. Hoje, uma pessoa pode estar em uma fazenda no meio do Mato Grosso, sem eletricidade, sem TV, ainda assim a informação vai chegar na porteira dela rapidamente. Chega rápido por que existe uma conexão com a rede na cidade mais próxima ou na fazenda vizinha.
Mas isso também pode ser muito perigoso. Podemos ter uma informação falsa.
Não é a internet que é perigosa, `viver é perigoso` como diria Guimarães Rosa. Agora, ao mesmo tempo em que ela é rápida para mentira, ela também é para o desmentido. Para mim, a internet não é mais ‘mentirosa’ que as outras mídias, ela deixou a mentira com as pernas mais curtas.
Se o mundo fosse acabar daqui a pouco o que faria? E se fizesse e o mundo não acabasse?
Eu não ia fazer nada (risadas). O que eu poderia fazer? Sinceramente acho que o mundo vai acabar daqui a pouco. Não só acho como tenho certeza. O mundo não, nós, eu, você, vamos acabar, o mundo vai continuar (risos). Procuro viver consciente disto e acredito que não vale a pena se permitir ‘pequenas travessuras’, isto é, cometer pequenos delitos. É melhor você fazer grandes travessuras, fazer coisas em que acredite. Esta é minha postura. Se meu período
de vida é curto, com muita sorte mais 30 ou 40 anos, um tempo que passa tão rápido, seria uma grande besteira fazer o que não gosto ou não acredito. Para citar, é patético ver o juiz Nicolau (dos Santos Neto), um senhor de idade, ex-juiz, que para comprar um iate na Flórida acabou passando por
todo esse vexame. Outro, o Pimenta Neves (acusado de matar a namorada), um colega jornalista, ex-diretor do Estadão; um homem inteligente fugindo da justiça igual a um menino da Febem. Devo defender os meninos da Febem pois a maioria deles não teve a chance de estudar. Acredito que vale a pena vivermos com ética, de uma maneira que você não precise se envergonhar de si mesmo.